sexta-feira, 1 de março de 2019

Crônicas da Água e da Lama I

A Água é Sagrada! A Vida é Sagrada!
E nem a Água e nem a Vida foram e estão sendo respeitadas!
Resolvi escrever essa crônica e que deverá ser a primeira de várias, pois é muita coisa que guardo no peito e na mente, após a tragédia ocorrida onde vivo, em Brumadinho.
É uma maneira de compartilhar sentimentos, experiências, impressões, de realizar denúncias e buscar compreender, nem que seja um pouco, do incompreensível, do injustificável, e alertar para o risco que estamos correndo, todos nós, e a urgente necessidade de mudarmos o atual paradigma de nossas relações com a Natureza e com nós mesmos!
A tragédia de Córrego do Feijão foi global! E um crime contra a Natureza e contra a Humanidade!
Mas é tanta coisa que tenho para dizer que vou começar expondo minha dificuldade em conseguir encontrar as palavras adequadas para expressar o que tenho visto e sentindo!
O que aconteceu no dia 25 de janeiro de 2019 mudou para sempre a minha Vida!
Nunca, jamais, pensei em ver e viver o que vi e vivi!
Moro com a minha Família em uma região de Brumadinho vizinha a Córrego do Feijão, onde se rompeu a barragem. Para se ter uma ideia, a mina Córrego do Feijão faz parte do chamado Complexo do Paraopeba, que tem também a mina da Jangada. A mina da Jangada, por sua vez já se encontra na localidade em que vivo, um maravilhoso e bucólico povoado chamado de Casa Branca.
Esses Complexos como o do Paraopeba, se formam pois as minas de exploração de minério de ferro vão crescendo tanto que uma mina começa a invadir o espaço da outra e ambas se juntam, formando os complexos!
Há inúmeros complexos de minas dessa forma aqui na região do Estado de Minas Gerais, conhecido como Quadrilátero Ferrífero, mas que cada vez deve-se afirmar e buscar a mudança de paradigma a partir da substituição do nome de Quadrilátero Ferrífero para Quadrilátero Aquífero! Isso porque a grande riqueza de Minas Gerais não é o Minério de Ferro! É a ÁGUA!
As Minas não são de Ouro, Diamante ou de Ferro, são de ÁGUA!
E onde vivo, Casa Branca, é um Santuário de Águas Puras, Limpas e Cristalinas, região montanhosa de inúmeras nascentes, as minas de águas, seriamente ameaçadas por vários motivos, mas a maior ameaça em termos de impactos diretos e proporção é a mineração de minério de ferro.
No dia do rompimento da barragem de rejeitos da mineradora VALE no Córrego do Feijão, eu estava com a minha Família, com minha esposa e filhos em outra localidade, chamada de Catas Altas (também seriamente impactada pela mineração), junto com a minha Mãe que comemorava nesse dia o seu aniversário!
Estávamos nos divertindo e aproveitando momentos maravilhosos! Meu filho mais velho estava a cavalgar e minha esposa foi buscar seu celular (que estavam também de descanso) para tirar fotos de nosso cavaleiro!
Após as fotos, ela resolveu "espiar" o aparelho e sua fisionomia mudou! Ficou grave e séria! No aparelho haviam centenas de mensagens nos perguntando se estávamos bem! O que significava aquilo? O que havia acontecido?
Ela liga para uma pessoa conhecida e descobre o motivo por tantas pessoas estarem preocupadas conosco, a barragem de rejeitos de minério da mina da VALE próximo de casa havia se rompido!
Aqui começa a dificuldade em descrever o que senti e o que pensei! Pois palavras não alcançam o rompante e avalanche de sentimentos e pensamentos que me atordoaram e ainda atordoam, claro que em muito menor intensidade, passados já um mês e alguns dias após aquele 25 de janeiro!
Algo que me lembro de ter experimentado foi uma revolta e indignação por termos avisando e lutando tanto contra a expansão do Complexo do Paraopeba! Junto, confesso que veio também um sentimento de exultação por saber que a partir dali poderia acontecer o que sempre sonhamos e queríamos, que a mineração na região acabasse! Ora, se após o crime de Bento Rodrigues, a empresa se tornou reincidente, ela seria fatalmente e definitivamente condenada e não haveria como sustentar a mineração na região e quem sabe em toda a região do Quadrilátero Aquífero! Na quele momento eu já sabia que o que havia acontecido iria mudar tudo e para sempre!
Fomos até a casa da fazenda onde estávamos e todas as pessoas estavam em volta da TV para assistir o que havia acontecido. As imagens eram chocantes! A minha exultação se transformou em profunda tristeza ao mesmo tempo que um sentimento de irrealidade tomou conta de mim! Aquilo tudo não parecia real, parecia um sonho, ou melhor, um pesadelo.
Nesse momento, pela TV, fiquei sabendo que o rompimento da barragem havia impulsionado uma tsunami de lama sobre o Córrego do Feijão e os primeiros a serem varridos pela gigantesca onde de lama foram as dependências da própria mineradora, inclusive o refeitório que encontrava-se lotado de funcionários e prestadores de serviços pois era o horário do almoço!
Nessa hora me lembrei do que vivi no meio do ano passado!
Me lembrei que após anos de lutas contra essa empresa para defendermos nossas nascentes, nossa Água e nossas Montanhas (em outra crônica irei falar sobre essa luta), em 2018 aconteceu a Audiência Pública, etapa importante em um processo de licenciamento ambiental, para a proposta de expansão das minas da Jangada e Córrego do Feijão, o Complexo do Paraopeba.
Essa Audiência Pública aconteceu na Câmara do Vereadores de Brumadinho, na sede do município e foram disponibilizados ônibus para levar às pessoas das Comunidades impactadas pelo empreendimento à Audiência. Lembro-me que foi um ônibus cheio, de Casa Branca e Córrego do Feijão, mas perto da população total de ambos os povoados, éramos muito poucos!
Sabíamos que a expansão das minas significaria a morte. Mas confesso que temia a morte das nascentes e das fontes d'água! Não imaginava que a face da morte se manifestaria pelo rompimento da barragem de rejeito!
Para denunciar o risco de morte que representaria essa expansão das minas, pensei em algo para chocar as pessoas e sacudi-las para o grave risco! Assim, surgiu a ideia, inspirada nas pinturas de guerra pré-colombianas e máscaras mexicanas, de me pintar de caveira, a poderosa e assustadora face da Morte!
E assim fui para essa Audiência Pública!
Como mencionei há pouco, estávamos em um ônibus apenas, e ao chegar na Câmara, haviam mutos ônibus que trouxeram centenas de funcionários da mineradora para a Audiência Pública! Estávamos cercados por funcionários com o característico uniforme verde dessa empresa!
Mas não nos intimidamos! Com a presença de ilustres Guerreiras e Guerreiros que defendem a Água e a Vida, entre eles a incansável, íntegra e valorosa Teca, uma das maiores ambientalistas de Minas Gerais que, como sempre, realizou uma magnifica, consistente e séria defesa dos motivos que faziam com que esse empreendimento fosse considerado irresponsável, ilegal, imoral e irregular! Sim, eles sabiam de tudo! Foi realmente uma tragédia anunciada!
Muitas outras falas contundentes se seguiram às da Teca! E em todas ovacionávamos com vigor, eu inclusive tocando o Caracol, a trombeta de búzios que desperta os Espíritos das Montanhas e das Águas e que naquele ambiente e momento causavam ainda mais impacto, ainda mais sendo tocada por uma caveira! Isso tudo cercados de um exército de funcionários da mineradora!
A Audiência Pública foi se estendendo e após as falas de muitos ambientalistas e membros das comunidades, estavam inscritos muitos funcionários da VALE que começaram a elogiar os benefícios e maravilhas da empresa! Em todas as falas que escutei, me lembro de sempre exaltarem os empregos gerados pela mineração. Uma fala em particular me marcou, a de uma funcionária que disse que a VALE havia proporcionado seu sonho de fazer uma cirurgia!
Como já era tarde e vimos que não sairia daquilo, além da revolta de ver tantas pessoas exaltando uma empresa criminosa, que já havia matado em Bento Rodrigues, decidimos ir embora antes do final da Audiência Pública. Ao sair do salão onde acontecia o evento, ao passar por um verdadeiro corredor de gente uniformizada da VALE, resolvi tocar pela última vez naquela noite o Caracol!
Toquei, a caveira o tocou e a reação dos funcionários da VALE foi um sonoro riso e gargalhar de escárnio!
Foi isso tudo que passou pela minha cabeça quando soube que o refeitório da mina havia sido engolido pela lama no horário do almoço! Muitas daquelas pessoas presentes no dia da Audiência Pública, muitos que riram de nós, estavam, naquele exato momento, mortos! MORTOS!
É difícil descrever o que senti!

No dia seguinte, no sábado, 26, retornamos para Casa Branca, até para conferirmos se nossa residência havia sido atingida diretamente pela lama. Mas toda Casa Branca, milagrosamente se salvou! Todo o povoado, as nascentes, córregos e riachos, tudo estava intacto! E claro, também a nossa casa.
Procurei saber onde melhor poderia ser útil no apoio e ajuda e fui para a escola municipal de Casa Branca, a mesma onde fui, anos atrás, vice-diretor.
O que vi na escola foi chocante! O melhor e o pior do ser humano!
Mas isso deixarei para a próxima crônica da Água e da Lama!
Para encerrar essa primeira, quero trazer um acontecimento muito fresco! Ontem, dia 28 de fevereiro de 2019, fui novamente a uma Audiência Pública, dessa vez na Câmara dos Vereadores de Belo Horizonte, onde foi debatido o tema da Segurança Hídrica, uma vez que com o rompimento da barragem houve a contaminação e morte do Rio Paraopeba, o que coloca em risco o abastecimento de Água para milhares de pessoas em toda a região metropolitana de BH!
E logo no começo da sessão, somos surpreendidos pelo anuncio da exoneração do superintendente do IBAMA, senhor Júlio Grilo, um incansável defensor do meio ambiente e dos recursos hídricos! Um Guerreiro! Conselheiro do Parque Estadual da Serra do Rola Moça, na região onde moro, e do famigerado conselho do COPAM, a Câmara minerária, ligado ao governo estadual de MG, que aprova e concede as licenças ambientais para os empreendimentos das mineradoras. Nesse espaço, Júlio Grilo era uma das vozes dissonantes, junto com a Teca, também conselheira, que. infelizmente sempre eram derrotados nas votações pelos demais conselheiros que parecem não importar em absolutamente nada com a Vida Humana e com a Natureza! Mas as reuniões do COPAM e Conselho do Parque do Rola Moça também ficam para as próximas crônicas!
Assim, Júlio Grilo, a você, lamentavelmente exonerado por ordem do ministro do meio ambiente do atual governo deste país que acumula equívocos e maldades, fica aqui meu agradecimento, reconhecimento e admiração! Por sua honestidade, retidão, coragem, valor e nobreza!
Um gigante! Ainda mais diante da pequenez de tanta gente cruel e medíocre!
Como se diz nos Andes, URPILLAY SONQOLLAY!

2 comentários:

Unknown disse...

Parabéns, Ka, pelo vivo e contundente relato! O bicho homem, auto proclamado sapiens, usa sua inteligência para explorar a terra de forma predatoria e destrutiva, mas estupidamente esquece que é animal e que como tal depende da natureza para viver. Destruir a natureza ė como cortar o galho em que se está assentado.

AndreaFV disse...

Ka, eu também fiquei anestesiada...e muito penso sobre isso tudo, sem palavras, mas como já sabemos, tudo tem um propósito, por mais que haja dor, tristeza, mortes e mágoas...vivemos numa rede e daí, todos nós temos direito à escolhas e nem todos fazem escolhas corretas! Infelizmente, no nosso país, há pessoas fazendo escolhas de ter um emprego, mas nem tudo é idôneo e merecedor...portanto a dica é, devemos ter sempre crítica, do tipo de trabalho que fazemos e o que podemos ajudar o planeta! Não podemos trabalhar só em troca de dinheiro, que no país, sempre mal remunerado, devemos correr atrás de correção, de maestria, de sustentabilidade planetária, de auto realização, enfim, de trabalhos dignos e mestres! Deixo a dica, trabalhar, assinar, coisas que estão incorretas, não dá! Não rola! Não mais é sustentável!